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Filmes da Minha Vida (Cláudia Aleixo) – Billy Elliot (2000)

Quando ainda estava na escola, costumava passar a semana a contar tostões, «Ainda tenho minas suficientes na lapiseira, não vale a pena comprar já a recarga. Esta sandes é mais barata que aquela» e outras coisas semelhantes. Com o dinheiro que poupava, reservava para mim mesma, praticamente todas as sextas-feiras, a melhor recompensa possível: uma visita à livraria e uma história nova para devorar. Cinema não era, na altura, uma paixão e ainda que agora seja um dos meus vícios mais prementes, nunca será capaz de suplantar o longo carrilhão de sentimentos que um bom livro desperta. Mas numa sexta-feira em que o alfarrabista do costume estava fechado dei por mim na Fnac a pôr um romance de volta na prateleira e a levar o DVD de Billy Elliot para a caixa. Não sei explicar ao certo que me passou pela cabeça mas nunca me arrependi de o ter feito.

Aquele miúdo com umas orelhas tão grandes quanto encarnadas, estranho e tímido, que se revela um prodígio de elegância e sensibilidade, ensinou-me algo muito importante e relevante numa altura em que a pressão para escolher um caminho e delinear imediatamente todo um futuro era imensa.

Billy Elliot é o patinho feio, o Peter Pan e a Alice num só; é uma história encorajadora sobre vencer preconceitos, seguir sonhos e permanecer fiel a si mesmo. Sim, é uma compilação de clichés mas, mais que isso, é uma lição sobre educação e expressão, sobre como alimentar a felicidade e investir naquilo que nos faz sentir mais nós mesmos. Billy Elliot fez mais por mim do que qualquer psicólogo escolar ou conselheiro profissional ou teste psicotécnico.

E fê-lo com um sentido de humor, uma graça e leveza completamente desfasadas do cenário cinzento e bruto da cidadezinha mineira de Durham, Inglaterra.

Pouco depois da morte da mãe e enquanto o pai (Gary Lewis) e o irmão mais velho (Jamie Draven) tentam melhorar as suas condições de trabalho juntando-se à greve dos mineiros, Billy Elliot (Jamie Bell), a criança da família, é encarregue de cuidar de si mesmo e da avó senil (Jean Heywood). Billy é um miúdo esperto, encara a situação com responsabilidade e nunca se ouve falar de negligência – afinal, há certas circunstâncias em que todos temos que fazer sacrifícios. Mas percebe-se que lhe falta algo, que apesar de não poder dizer que é infeliz também não está completamente satisfeito com o papel que lhe foi legado. É um rapaz doce e compreensivo mas quando o pai insiste para que aprenda boxe como ele e o seu pai antes dele, Billy tem que bater o pé: o rapaz não gosta de boxe, não se sente confortável no ringue e os movimentos não parecem naturais. Já com o ballet a história é outra…

O realizador Stephen Daldry conseguiu criar um quadro de frustração e violência – a greve dos mineiros e as urgências da realidade dos adultos – onde despontam alegremente as perspetivas coloridas e descomplexadas das crianças e momentos plenos de energia com Billy a dançar pelas ruas. A petulância de Debbie (Nicola Blackwell), a confiança e simplicidade de Michael (Stuart Wells), a inocência e franqueza da avó e, sobretudo, a sensibilidade de Billy – as crianças e os sonhadores – fazem um belíssimo contraste com a insatisfação e agressividade dos adultos, que parecem todos prestes a explodir (exceto a Mrs. Wilkinson – a brilhante Julie Walters – que acho que só não o faz porque expele as frustrações juntamente com o fumo dos inúmeros cigarros que fuma). O mundo parecia muito mais simples quando éramos miúdos, não porque se tenha tornado mais complicado, mas porque insistimos em complicá-lo.

Há uma cena no filme em que Jackie Elliot está a tentar dar um sermão ao filho por preferir as aulas de ballet às de boxe e Billy pergunta com uma inocência desarmante «What’s wrong with ballet?».

Realmente, o que há de errado com o ballet ou com qualquer outra escolha? Contando que nos faça felizes e não prejudique ninguém. A verdade, que temos tendência para esquecer, é que somos indivíduos livres para escolher os nossos próprios caminhos. Da mesma forma que, de um ambiente inóspito que parecia apropriado apenas para produzir mineiros roufenhos, bebedores de cerveja e personalidades reprimidas, veio algo lindo, leve e divertido, no meio de uma sociedade automática e ambiciosa, programada para fazer dinheiro e alcançar sucesso profissional, entre todas as responsabilidades e pressões para preencher determinado papel ou expectativa, há sempre espaço para sermos nós mesmos.

Aquele miúdo de orelhas salientes e sorriso desarmante que foi dançando através dos obstáculos – fossem eles o preconceito da família e da comunidade, o ambiente desmotivante das casas tipo caixote dispostas em dominó no bairro onde vive, ou as suas próprias dificuldades enquanto bailarino – mostra-nos que quando o mundo parece mais escuro e pesado que nunca, podemos sempre criar a nossa própria luz, o nosso próprio sorriso, a nossa própria esperança.

Esse DVD que inexplicavelmente se colou às minhas mãos naquela sexta-feira, é um lembrete que guardo com carinho para quando começar a questionar o motivo das minhas escolhas e não me esquecer que é assim que elas me devem fazer sentir (carreguem na imagem para ver o vídeo):

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