Enemy

O Homem Duplicado (Enemy, 2013)

O caos é uma ordem por decifrar” – José Saramago

Escolhido a dedo, este é o chavão que abre The Enemy, a adaptação cinematográfica do romance O Homem Duplicado do nosso prémio Nobel, José Saramago. Após o visionamento do filme foi necessário tempo para a digestão e organização deste “documentário do subconsciente” realizado pelo canadiano Denis Villeneuve e adaptado pelo espanhol Javier Gullón.

Uma parábola totalmente surreal, repleta de simbolismo e de metáforas que cumpre o desejo de adaptação livre que Saramago pretendia para o seu romance.

Gloriosamente enigmático, este profundo thriller psicológico, relata-nos da história de Adam Bell, um solitário e neurótico professor de história, e serve-se de tal para explorar a mente de um homem em crise.

A conselho de um colega, o professor encontra, num filme alugado o seu reflexo, um ator idêntico a si; Anthony Saint-Claire.

O desenrolar desta história é totalmente imprevisível, estando em jogo a perda de identidade, numa sociedade que cultiva a individualidade, a fragmentação da mente humana e o medo.

O filme inicia-se com uma cena num secreto clube sexual. Uma mulher é recebida no palco e, vestindo nada para além de saltos altos, apresenta uma enorme aranha numa bandeja de prata, que não hesita em esmagar. O ator principal encontra-se na plateia, a assisitir.

A aranha é, de certo, uma figura recorrente no filme. Simboliza o cativeiro social em que nos inserimos, e mesmo a personagem principal – versada na história de regimes totalitários e os seus precedentes -, não se apercebe que sobre a sua cabeça se encontra  uma enorme aranha a tecer a sua teia. Esta relação não é aleatória e já n’O ano da morte de Ricardo Reis se estabelecem paralelos entre a figura da aranha e a prisão, a opressão e o terror.

Quando este descobre o seu doppelgänger apercebe-se que nunca mais se poderá sentir único e individual na sociedade e isso torna-o obsessivo e paranóico.

A vida destes dois personagens cruzam-se de maneiras variadas e surpreendentes, convergindo num final, no mínimo, misterioso. A relação entre os dois origina uma oculta e simbólica meditação sobre a vida.

We live in a dark age, when freedoms are diminishing, when there is no space for criticism, when totalitarianism no longer even needs an ideology, and religious intolerance is on the rise” – George Orwell

O andamento lento do filme proporciona um ambiente denso e negro, enquanto a banda sonora nos integra, adequadamente, nesse mesmo universo. Repleto de planos lúgubres e deslumbrantes, que por vezes decide explodir. Lembra um pouco Hitchcock misturado com o filme Memento. Jake Gyllenhaal mostra dominar a arte de representar ao recriar dois indivíduos iguais e simultaneamente distintos até ao nível da postura e dos gestos.

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