Le-Dernier-Métro-Copyright-Jean-Pierre-Fizet-2

O Último Metro (Le Dernier Métro, 1980)

Truffaut traz-nos nesta longa-metragem histórica, mas intemporal, uma clara homenagem ao poder da Arte como necessidade existencial, como o oxigénio de se ser e como escape ao mero viver.

O Último Metro não tem de todo pretensões em ser outra afirmação culpabilizante ao passado terrível histórico, mesmo tendo em conta o cenário da narrativa, não tenta ser mais um filme piedoso anti-nazi, quanto muito relembra um facto.

Não obstante, afirma-se também em parte como um apontar de dedo ao caráter ou à falta dele. Veja-se a personagem de Daxiat, o crítico de teatro colaboracionista e pedante, que em nada contribui apesar da sua crença numa importância egóica exacerbada, como se a sua opinião, baseada no seu saber individual, constituísse algum tipo de privilégio para os demais.

No fundo, este reparo do autor revê-se no manifesto da Nouvelle Vague e aponta a qualquer “júri” da Arte. Porque falar é fácil, os pupilos de Bazin entraram em modo Marty McFly para mostrar que o futuro estava de volta. Godard, Truffaut e o resto da quadrilha libertina, abandonaram a redação e tomaram a realização de assalto, fazendo do realismo poético francês vítima principesca desta Nova Revolução Francesa com o cinema de autor como bandeira.

Questão em causa: Que legitimidade possui um individuo em somente fazer crítica de algo? Com certeza que é mais fácil e confortável, mas os Young Turks partilhavam um outro ideal. Defenderam que, para poderem apontar o que de mal viam no cinema, exigia-se-lhes que demonstrassem a sua opinião, construindo. De facto, a evolução reside neste princípio: de não destruir simplesmente o suposto errado mas sim crescer a partir deste. Deixaram para trás a ainda célebre Cahiers du Cinéma e presentearam-nos com um (o) ponto de viragem da 7ª Arte, sem deixarem de ser filhos do que criticavam.

Porém esta corrente não se estanca temporalmente, a Nouvelle Vague não morreu! As opiniões divergem, mas o verdadeiro espírito deste grupo não é pretensioso, é cáustico e irreverente, mas sério.

Neste filme passa-se também a outra (hi)stória deste plano paralelo e que aqui não podia deixar de ser referida e apreciada. O autor conta-nos um romance triangular tão típico do seu estilo (“Jules et Jim” talvez o mais vincado), sempre doce e íntimo com elenco a condizer; Deneuve idilicamente bela mas não fatal e Depardieu, o galã pachorrento e ternurento mas que dá e vende charme nesta película de coleção.

Aqui, o Romance sai da cave deste “teatro” bafiento piegas e vence a escuridão pela mão do Amor patrimonial coletivo, a Arte.

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com