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O Teorema Zero (The Zero Theorem, 2013)

Num futuro distópico onde somos constantemente bombardeados por anúncios e promessas de felicidade, Qohen Leth (Christoph Waltz) espera por um telefonema. Leth é um programador de código, um dos melhores, e vive obcecado com a ideia de que um dia o seu telefone irá tocar e, do outro lado, alguém lhe dirá o sentido da vida. Enquanto espera, vai fazendo o seu trabalho, paciente e nervosamente.

Com o slogan “EVERYTHING IS UNDER CONTROL” – a frase-chave da empresa para o qual Leth trabalha – o realizador Terry Gilliam propõe continuar a longa tradição de histórias distópicas como 1984 e Fahrenheit 451. No entanto, o poder totalitário e manipulador da empresa acaba por ser apenas um pano de fundo para o “verdadeiro” tema do filme.

O paradoxo d’O Teorema Zero é este: Leth espera pelo “sentida da vida” através de um telefonema. Entretanto, é destacado pelo Chefe da empresa (Matt Damon) para trabalhar no código do enigmático Teorema Zero – cujo propósito é provar, cientificamente, que a vida é absurda e sem sentido.

O filme torna-se numa reflexão filosófica saltitante, com uma possível parceira romântica que vem e vai (Mélanie Thierry), e o filho do Chefe a ajudar Leth no código do Teorema. Bob, o filho do patrão, é uma das personagens mais interessantes da história: é o único jovem no filme e, talvez como metáfora, a única personagem que se recusa a ser (completamente) manipulado pelo sistema.

O Teorema Zero pode ser visto como uma versão Gilliam-esca de “Pi” (1998), sendo que o estilo fantasia-Orwell-iana do realizador é instantaneamente reconhecível para quem viu Brazil. E, para o bem e para o mal, a gramática cinematográfica de Gilliam não sofreu mudanças drásticas desde esse clássico de culto – quem gostou de um encontrará, em princípio, algo de interesse neste Teorema.

Com um tema sempre no limiar do “forçadamente profundo” e atuações aceitáveis, Gilliam compensa com alguns dos seus ambientes sci-fi bem construídos (embora até estes pareçam por vezes artificiais). Quanto ao plot geral, já referimos o paradoxo inerente: se por um lado a personagem espera pelo telefonema que o irá libertar, e trabalha como que para passar o tempo, o trabalho em si é uma procura incansável pelo (não-)sentido do Universo. O Chefe de Leth exprime esta ideia poeticamente, naquele que é talvez o ponto alto do filme: “essa é a tristeza do homem de fé: enquanto espera pela “verdadeira” salvação – o Sentido da vida que virá – trata a vida presente como menos importante. E, por isso mesmo, acaba por levar uma vida sem sentido”.

Depois de toda esta reflexão, Gilliam deixa-nos uma das mensagens clássicas existencialistas: obcecar sobre o absurdo da vida é, por vezes, bem mais absurdo que a própria vida.

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