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Entrevista a Sérgio Marques, coordenador e programador do Fitas na Rua

Está de volta o Fitas na Rua, uma iniciativa enquadrada no Lisboa na Rua, que promete trazer sessões de cinema ao ar livre com entrada gratuita, espalhadas pelos vários recantos da cidade alfacinha. A primeira sessão foi já no último dia 23 de Agosto e a programação (disponível aqui) estende-se até dia 20 de Setembro. Para além das sessões programadas, o festival conta também com muitas actividades, curtas, concertos, entre outros.

Desta vez, o Fitas propõe-se a apresentar apenas filmes com nomes de mulheres. Estivemos à conversa com o programador e coordenador do evento, Sérgio Marques. Entrevista por Alexandre Vaz.


Alexandre VazNo site oficial do Fitas na Rua, o festival é apresentado com a seguinte frase: “Há algo de inexplicável na relação entre o cinema e as personagens femininas”. É uma relação difícil ou de admiração mútua?

Sérgio Marques – Acho que é uma relação total, não se pode fechar em nada. As personagens femininas são como as masculinas – infinitas. Podem ser tudo, tal como o cinema pode ser tudo.

AV Acha que as personagens femininas tenderam historicamente a ser desvalorizads, postas para um segundo plano? Ou, no outro extremo, idealizadas, e por isso sobre-humanas?

SM – Para já, eu escolhi esta programação dos filmes com nomes de mulheres por uma questão muito simples: estava a escolher filmes e só me estavam a sair uns com nome de mulher. (risos) Portanto não há aqui nenhum grande conceito! Depois foi engraçado, porque estive a ver os filmes com nome de mulher, e na realidade há filmes muito emblemáticos na história do cinema com nome de mulher. E muitos deles que não estou a passar, como o Gilda, o All About Eve, que em portugués é Eva… Portanto, o nome de mulher é uma coisa muito cinematográfica. No primeiro texto que escrevi para justificar este tema, dizia: “este ano escolhemos filmes com nome de mulher. Podia ser de homens. Mas primeiro as senhoras”. (risos) Não há aqui uma intenção feminista, fomos só arranjar um tema, e o tema ficou “filmes com nome de mulher”. E fora isso, fomos buscar a expressão “estrelas”. Porque elas são estrelas, não é?

AV – Estrelas, divas, femme fatale, apesar de tudo são estereótipos mais femininos. Não há um “femme fatale” em versão masculina…

SM – O macho fatale! (risos) Não, realmente não há. Ou se calhar podemos pensar como se pensa nos filmes de cinema pornográfico, que é feito maioritariamente para homens. O mundo sempre foi muito dominado por homens, e aí as mulheres aparecem como objecto para os homens. Se calhar por isso faz mais sentido que apareça mais a mulher como uma mulher-objecto, uma deusa, [AV – mais idealizável] sim.

AV – E, para além do título, qual foi o critério para a selecção dos filmes?

SM – Eu queria muito passar o Barbarella e o Gloria, que são filmes engraçados e que funcionam muito bem ao ar livre… Porque também há esta questão do ar livre – podemos ter filmes maravilhosos mas que ao ar livre não funcionam… por questões técnicas, como a luminosidade dos filmes, conseguir as cópias, o próprio ritmo do filme. Porque há ritmos que também não funcionam, porque quando estás sentado numa sessão ao ar livre não há o mesmo compromisso que existe numa sala escura. Há carros que passam, pessoas…

AV – Portanto é preciso ter em conta esse contexto para escolher um filme.

SM – Sim, e é preciso ser um filme que consiga absorver muito a atenção do espectador.

AV – Nesta edição do Fitas na Rua temos por exemplo uma Gloria, com a sua dureza maternal, e uma Pina Bausch, com a sua sensibilidade calculada. Portanto estas mulheres do Fitas são complexas, e há de tudo. Como escolher quais a mulheres a representar no festival?

SM – Os sítios. Eu faço cinema “site specific”, associo-me aos locais. Imagina que eu descubro duzentos filmes que poderia passar, com nome de mulher. Depois tenho de me sujeitar aos sítios onde os vou estar. Portanto, eu estudo os sítios, penso em qualquer coisa que tenha que ver com esses locais, ou a sua dinâmica… Há uma sessão que eu escolhi só porque um dos moradores disse que era o filme preferido dele, o Sabrina. O Fitas na Rua é uma coisa para a população, por isso aí estava uma boa razão para o passar. O Amália foi simples, passou na Mouraria por esta ser a terra do fado, e foi ao lado da Casa da Severa. Portanto eu sujeito-me aos sítios. Gostava muito de passar o Gilda, que é um filme maravilhoso, ou o All About Eve, mas não encontrei o sítio.

AV – O Fitas na Rua também passa curtas antes das sessões principais. Como foi o processo de seleção destas?

SM – As curtas eu tento sempre que sejam portuguesas. Depois ou associa as curtas ao local ou à longa-metragem desse dia. Por exemplo, no intendente vai passar o Pina. Antes disso vai passar um filme do Sérgio Cruz, o “Outside”, que é um tipo de coreografia sobre pessoas a fazer ginástica em Pequim. Portanto aí existe logo uma associação. O Gloria vou passar na Graça, na Rua Senhora da Glória, e antes passamos o Sophia Mello Breyner Andresen [de João César Monteiro], porque a Sophia morou lá.

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AV – E estão planeadas mais do que sessões de cinema – o festival colabora com outros artistas locais, há cine-concertos…

SM – Sim, a missão deste projecto, tal como foi desenhado e proposto à EGEAC, é o de criar um dispositivo atrativo que mostre cinema de qualidade às pessoas, e que o faça em espaço público gratuitamente. Queremos criar um encontro entre uma obra de arte e o público, esse é o objetivo essencial do Fitas na Rua. Eu não tenho uma missão de entretenimento – tenho também, mas não é por aí que me guio. Guio-me por criar esse dispositivo e depois tento arranjar entretenimento, ou então arranjar forma de envolver a comunidade local, coisa que às vezes não consigo porque quem vem ver o Fitas são pessoas que gostam dos filmes, ou que vêm do outro lado da cidade… mas é muito importante que no meio dessa gente também venha público local. Se passar clássicos é uma oportunidade para os ver em grande ecrã, se passar cinema de autor talvez também sejam filmes que as pessoas normalmente nunca iriam procurar. Depois também tem que ver com a oferta de cinema que há no país, porque só há cinema comercial, de entretenimento. E o cinema que não é de entretenimento é para um público específico que já o procura…

AV – Portanto também querem mostrar cinema específico para um público que normalmente não o procuraria?

SM – Que não o iria ver nem iria fazer download ao piratebay! (risos)

AV – No dia 20 de Setembro o largo do Intendente vai deixar de ser Pina Manique por um dia, para passar a ser Pina Bausch. O filme de Wim Wenders vai passar às 22h, mas antes disso o largo vai servir de palco para mais actividades.

SM – Isso é a Marta Silva, que é do Largo Residências, um projeto artístico que dinamiza muito esse espaço. Falei com ela para lhe propor a ideia de fazermos uma sessão, estivemos a pensar em filmes – e ela é bailarina, chegou até a trabalhar com a Pina Bausch, acho – por isso sugeriu transformarmos o espaço no Café Müller, o espectáculo da Pina. As atividades da tarde ainda não foram oficialmente divulgadas, mas o que vai acontecer provavelmente é a Marta conseguir que pessoas da comunidade do Intendente aprendam a coreografia inicial do filme. E as esplanadas são transformadas num Café Müller.

AV – A que horas é que isso se passaria?

SM – Começará a partir das 15h. Mas isso sairá em breve no programa com mais detalhe. Também haverá um concerto às 19h, que faz parte do Lisboa na Rua, de música do Piazzolla.

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AV – Uma última pergunta: no filme Sabrina, que passaram no dia 24 de Agosto, a personagem desempenhada por Humphrey Bogart diz a Sabrina: “never resist an impulse, especially if it’s terrible”…

SM – Nós até fizemos t-shirts com a frase que ela diz antes dessa: “All night long I’ve had the most terrible impulse to do something”. (risos)

AV – Seguindo esse mote, ia perguntar se já havia alguma tentação – ou impulso – para as próximas edições do Fitas na Rua: alguma ideia para temas futuros, por exemplo. Partindo do pressuposto que o Fitas continuará.

SM – Sim, sim, o Fitas continuará, mas ainda só tenho umas ideias muito vagas… Mas o Fitas na Rua é um impulso terrível! Eu faço coisas terríveis.

AV – Por exemplo?

SM – Por exemplo a sessão do Maria do Mar, que vai acontecer no bairro Portugal Novo, que é um bairro de população cigana, africana e indiana. Eu mostrei o filme às técnicas sociais e tivemos a discutir porque queriam que eu passasse um filme comercial, de entretenimento, e eu achava que devíamos passar um filme que as pessoas nunca fossem ver. E elas diziam “mas isso é uma coisa que vai correr mal! Vai correr mal! Vão ver um filme mudo, estas pessoas nunca viram um filme mudo!”. E eu disse que então fazíamos um cine-concerto, com música africana, indiana e cigana, para criar um dispositivo mais atrativo, mas para que as pessoas tenham oportunidade de ver o Maria do Mar, que é uma obra-prima portuguesa. Porque o Maria do Mar só é apresentado em salões nobres, com orquestra e com pessoas a pagar bilhete. Vamos pegar no filme e fazer uma mostra para uma população que se calhar nunca iria ver aquele filme na vida. Se calhar algumas pessoas vão odiar o filme. Mas se algumas gostarem, já ganhei.

AV – Sem dúvida. Há algum filme que vão passar que seja um favorito pessoal?

SM – Vi há pouco tempo o Viridiana [de Luís Buñuel], e fiquei parvo. É uma moca de um filme de 1961. Mas eu adoro o Buñuel…

AV – Nunca vi esse…

SM – Então não vejas, vem ver no sábado!

AV – (risos) Ok! Muito obrigado, Sérgio.


Para mais informações sobre o Fitas na Rua, podem consultar o site oficial: http://www.lisboanarua.com/2014/fitas-naua/ 

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