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Em Parte Incerta (Gone Girl, 2014)

O novo filme de David Fincher é um mistério dissonante. Baseando-se no livro de 2012 de Gillian Flynn, o realizador, mais uma vez, criou uma obra aparentemente mainstream-friendly que acaba por se demonstrar mais bizarra do que seria de esperar – principalmente para um filme protagonizado por Ben Affleck. Mas já lá vamos.

Em Parte Incerta (Gone Girl em inglês, título bem mais sonante) conta com a ajuda de Flynn, que escreveu o guião adaptado a partir do seu livro, e algumas colaborações já típicas para Fincher, tanto a nível de produção, direção de fotografia e música. O resultado são 149 minutos de tensão, nervosismo e cinismo – naquilo que muitos já chamam o filme do ano.

A História

Em Parte Incerta é o tipo de filme que podemos estragar ao contar demasiado (mas prometemos não o fazer nesta crítica). O factor spoiler é tão grande que o trailer oficial vê-se obrigado a “fingir” uma narrativa semi-linear. Para quem ainda não viu o filme, podemos garantir uma coisa: este trailer não abarca nem metade das reviravoltas que a narrativa nos atira à cara.

O que é que podemos contar? Em Parte Incerta começa por nos apresentar o casal Nick Dunne (Ben Affleck) e Amy Elliott-Dunne (Rosamund Pike). No dia do seu quinto aniversário de casamento, Amy desaparece. Nick liga às autoridades e começa uma procura incessante pela sua mulher. O desaparecimento de Amy cria uma atenção mediática avassaladora, e as provas que vão surgindo – o casamento turbulento, o sangue na cozinha, o diário meio-queimado de Amy – criam uma suspeita crescente do envolvimento de Nick no crime. Será que ele matou a sua própria mulher? Como espectadores, ficamos realmente confusos e divididos enquanto seguimos o choque de Nick – que se diz inocente -, já que nos é impossível entender o quão inocente ele é. Mérito de Fincher por conseguir manter esta dúvida sem grandes previsibilidades de enredo.

Aliás, uma das grandes forças do filme – talvez a maior – está na quantidade e na eficácia dos plot twists. É difícil hoje em dia criar um história onde não sabemos, ou pelo menos, não suspeitamos, o que irá acontecer a seguir. Em Parte Incerta consegue surpreender a meio, a três-quartos e no fim da história. E mais não podemos dizer.

Como nota a crítica do jornal The Guardian, Fincher é tão rápido e intenso a apresentar novos desenvolvimentos que nunca chegamos a pôr em causa a plausibilidade destes. E ainda bem, porque qualquer pretensão do filme como representante dos “dramas inerentes ao casamento” tornaria a experiência absurda. Por outras palavras, a história é demasiado improvável para ser levada a sério. Mas (felizmente) raramente temos tempo para a contestar.

As Prestações

Conseguir fazer Ben Affleck parecer bem no grande ecrã, iguala-se, para muitos cinéfilos, ao milagre de transformar água em vinho. É com enorme prazer que vemos este milagre materializar-se, já que o pseudo-charme-de-macho-alfa de Affleck funciona lindamente no contexto de marido desorientado. A escolha de casting não poderia ser mais bizarra, já que Affleck é responsável por algumas das comédias mais mediocres que o Homem já concebeu, e é agora atirado para um thriller artístico, cínico e sangrento. Mas Fincher, sabe Deus como, intuiu e acertou. Já de Rosamund Pike pouco podemos dizer (por questões spoiler-escas), mas é um facto que o ar angelical-psicótico da atriz preenche toda a complexidade que o papel exige.

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Amy Dunne e a pergunta que abre o filme: “o que fizemos um ao outro?”

Para os fãs da série How I Met Your Mother, ver o ator Neil Patrick Harris a desempenhar o papel de um ex-namorado obsessivo pode ser uma experiência difícil – já que em vez das punch lines cómicas a que fomos habituados temos uma personagem negra e perturbada. Mais uma escolha pouco óbvia do realizador que acaba por resultar (embora nunca nos habituemos completamente à estranheza de um Barney Fincher-esco).

A Música

A mistura de ambientes etéreos com “ataques” electrónicos cria uma sensação nervosa, uma ansiedade que serve de espinha dorsal para o desenrolar de toda a história. E de ansiedade etérea sabe Trent Reznor: líder da banda Nine Inch Nails, virtuoso de produção musical e de negritudes variadas, Reznor junta-se pela terceira vez a Atticus Ross para criar a banda sonora deste Em Parte Incerta. A dupla tinha já contribuido musicalmente para Fincher em The Girl with the Dragon TattooThe Social Network – este último valendo-lhes o Óscar de melhor banda sonora de 2010.

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Trent Reznor & Atticus Ross: o estúdio deles é maior que o vosso.

As parecenças para com as bandas sonoras anteriores da dupla são óbvias – mas também o são para com a carreira de Reznor no geral. O mastermind dos Nine Inch Nails demorou muitos anos a aperfeiçoar o seu estilo de electrónica glitch, perfeito para os ambientes nocturnos de Fincher e as guitarras dissonantes da sua banda. Para quem conhece – e reconhece – o músico, o seu trabalho neste filme será simultaneamente previsível e (muito) gratificante.

Para além disso, os ambientes Reznor-Ross são tão evocativos que funcionam genuinamente bem só por si. Eis a prova:

A Imagem

Com uma cinematografia True Detective-esca, Fincher aposta muito no equilíbrio delicado entre o que vemos e o que ouvimos. Neste caso, Jeff Cronenweth é o nome a decorar: diretor de fotografia do filme, Cronenweth é um parceiro de longa data de Fincher, tendo-se encarregado desta tarefa em Fight Club, The Social Network e The Girl with the Dragon Tatoo.

Ceán Chaffin, o produtor do filme, revelou que Fincher filmou em média 50 takes por cada cena. Esta linha fina entre o perfeccionismo e a compulsão resultou naquele que pode ser o ambiente mais “clínico” que o realizador já criou – de uma frieza estilosa, e com rasgos de verdadeira inspiração no filmar das cenas mais cruciais (leia-se traumáticas) do filme. E tudo isto ajuda a tornar os 149 minutos de filme numa experiência que nunca aborrece.

As Camadas

Outros artigos têm vindo a destacar a crítica social presente no filme – no modo como mostra a volatilidade da opinião pública, e as subsequentes formas de a manipular. O filme parece muitas vezes tentar abordar macro-temas como a futilidade tabloidesca da comunicação social, os impactos de uma economia instável, e os problemas que assolam qualquer casamento. Nenhum destes temas é convincentemente abordado, e rapidamente sentimos que todo o potencial do filme reside no único mistério apresentado – o casal Nick e Amy. Se analisarmos à lupa as outras macro-camadas, encontramos talvez a grande falha da obra: uma pobreza pela falta de realismo retratado. Para um filme tão “frio” e calculado, tão perfeccionista e meticuloso, a verdade é que uma história destas não pode ser levada como uma crítica séria à vivência matrimonial – como alguns críticos tentaram fazer. Empatizar com algumas destas personagens parece, na humilde opinião daquele que escreve esta crítica, uma maluquice. Mas felizmente não teremos de levar nada disto demasiado a sério. A não ser que o vosso companheiro romântico ande desaparecido, morto ou a matar gente – e nesse caso, as nossas condolências.

Gone-GirlO filme poderá também ser acusado de misoginia ou de feminismo radical, dependendo do ponto de vista. Tal como Fight Club pode ser – e foi! – acusado de promover ideias anárquicas ou mesmo fascistas. É difícil perceber se existe uma moral ou filosofia escondida na história, em parte porque nenhuma das personagens é particularmente eficaz a convencer-nos dos motivos para as suas acções. E isto trabalha provavelmente a favor do filme – que quanto mais perto se mantiver da lógica thriller e mais longe da filosofia, melhor. Como dissemos, uma análise “profunda” releva as inconsistências da narrativa, e talvez por isso devêssemos aceitar um certo suspension of disbelief e saborear a constante manipulação emocional ao qual somos submetidos. Porque, esse sim, é o forte do filme.

O Final Controverso (que prometemos não revelar)

Uma das coisas mais perturbadoras do filme é o seu final. Para alguns é fonte de choque, para outros de desapontamento. A própria autora do livro (e guião do filme) surpreendeu-se pela polémica causada pelo desfecho, chegando a “ter de” defender este final (spoiler alert). Especulações sobre um final alternativo ao do livro começaram a surgir meses antes da estreia do filme, mas estes rumores parecem ter sido exagerados, já que no final do filme a conclusão é essencialmente a mesma que no livro (embora com uma apresentação ligeiramente diferente: mais sobre este ponto aqui, mas cuidado com os spoilers). Existe uma ênfase redobrada, no filme, aos aspectos vampirescos da comunicação social – a tal crítica que Fincher parece querer deixar clara, embora talvez não seja tão relevante como o realizador gostasse.

De qualquer modo, o final salienta um tom surreal (até pouco credível) que vai crescendo ao longo da história, e que pode ser ridicularizado ou debatido. Mas mesmo que não se goste do desfecho, isto não retira os muitos méritos do filme. A verdade é que Fincher consegue criar uma experiência entusiasmante e imprevisível. E mesmo que Em Parte Incerta não faça História, é uma viagem que vale a pena ter.

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