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Filmes da Minha Vida (Rui Paulino) – North By Northwest (1959)

North by Northwest, um dos melhor sucedidos de Alfred Hitchcock, apanhou o mundo de assalto em 1959, indo ao encontro das expectativas de Ernest Lehman, que escreveu o guião com a mira de fazer o filme de Hitchcock para acabar com os filmes de Hitchcock. Esta derradeira película retrata uma história de intensa conspiração, um thriller de espionagem que segue Roger Thornhill, interpretado por Cary Grant, na sua ingrata envolvência com o nome de George Kaplan; uma troca de identidades, baptizada com fatalidade.

O argumento de Ernest Lehman encontra-se bem encadeado, com uma boa progressão dos eventos, sem deixar de cultivar a ansiedade pela dúvida que persiste sobre o ponto de vista da personagem principal, assim como pelo que se sucede em cada ponto de acção. Empolgante até ao limite, o dom para o suspense do realizador encontra-se perfeitamente aliado com o enredo para criar uma intriga, na sua maior parte, original. Diga-se, na sua maioria, pois apesar de todos os méritos merecidos, o produto final não está isento de apreensão, boa porção provavelmente devida às censuras e pressões de externos para se adequar à imagem de decência cultivada na época. Como por exemplo, mudar a frase de Eve Kendall “I never make love on an empty stomach” para “I never discuss love on an empty stomach”. Continuando com Eve Kendall, interpretada por Eva Marie Saint, o enredo romântico desta com a personagem de Cary Grant deixa algo a desejar em credibilidade, deslocado do tom mais sinistro do filme e parecendo desnecessário para o trama. É um tipo de artificialidade que parece ter sido elaborado para completar um requisito exigido para um filme de sucesso da altura, que não sobrevive bem com o passar do tempo. Para além deste ponto fraco, existe alguma exposição crucial, particularmente na cena com a reunião da Agência, que explica o que até então se estaria a passar. Mais uma vez, desnecessária, parecendo ter sido colocada para satisfazer a audiência, aliviando a confusão por tempo suficiente para deixar o espectador interessado. É uma questão de equilíbrio, suponho, mas a informação exposta nessa cena é posteriormente revelada de forma mais orgânica, e pessoalmente acho que o impacto seria bem mais forte aí, fosse esse segmento cortado do filme.

Ainda assim, os pontos fortes desta história são executados habilidosamente, com uma fluidez entre e dentro de cenas tão fenomenal quanto o trabalho de suspense característico de quem manipula com mestria os elementos de tensão, de inquietação pungente e mistério perturbador. Existem alguns realizadores cujo dote narrativo desafia a lógica analítica no quão naturalmente envolventes tornam as suas histórias, e é com estas extensões do seu toque que Hitchcock não só se torna um deles, como maneja com arte o espectador por toda a sua obra de conspiração, deixando-nos com monolítica atenção e interesse pelos eventos revelados.

Pegando por pontos mais tangíveis, podemos estabelecer um caso de mérito quanto à ótima cinematografia exibida, um trabalho de iluminação dedicado e detalhado, que se difunde em momentos e cenas pontuais. Vem à ideia o escurecimento da divisão no primeiro encontro de Roger Thornhill com a personagem de James Mason, Phillip Vandamm, ao que se juntam de imediato focos de iluminação adicional – nesta cena específica, retroiluminação – para obter uma atmosfera lúgubre sobre a personagem. Alternando entre a penumbra, o enegrecimento e a melhor iluminação, o contraste criado torna-se eficaz para ceder uma ambiência misteriosa, além de visualmente cativante. Ainda detrás da lente, somos frequentemente presenteados com belos enquadramentos longínquos e planos interessantes, especialmente para obter uma perspectiva elevada. Nem todas estas demonstrações técnicas são fáceis de descortinar quanto à intenção, e tentá-lo significaria dobrar o comprimento deste texto, mas considerando a minúcia e o simbolismo por vezes procurado pelo realizador, será sem dúvida um exercício interessante. Senão em todos os bons realizadores, até. Exceptua-se o último plano do comboio a entrar no túnel, cujo simbolismo é traquinice do realizador.

Destes planos, diga-se cada um tão essencial como o que lhe precede ou antecede, sem exceder o seu tempo de vida para o que a cena lhes exige, fruto do trabalho excelente de edição, com George Tomasini na dupla com o realizador, como em tantos outros filmes. Com menos de 2,40m de película cortada – isto é, aproximadamente 5 segundos de filme -, o trabalho de montagem é um dos pontos mais fortes em North By Northwest, mostrando-nos belas dissoluções e transições em corte bruto eficazes e criativas, colmatando num encadeamento tão original como natural da ação. Serve para exemplo o genérico de abertura, em que a montagem é conciliada com o trabalho de animação para criar o primeiro plano do filme: Madison Avenue espelhada num edifício, originado da animação de tipografia cinética. Curiosamente, no primeiro plano do filme, também se estreia esta técnica pela primeira vez na história do cinema, algo que se tornou desde então comum, e que vem da cortesia de Saul Bass.

Num tom pessoal, diria que este período de Hollywood pulula de um certo ideal de sofisticação, que transparece para a mise-en-scène em todos os aspectos, com destaque adicional para o belo trabalho de Robert Boyle como designer de produção, na elaboração dos cenários indoors, assim como para Bernard Hermann pela composição musical, um dos nomes recorrentes nas colaborações com Hitchcock. Os mais notórios elementos de classe no filme serão, contudo, os atores. E a tentação talvez seja a de isolar Cary Grant no seu papel genial e carismático como protagonista, porém, todo o elenco entra em peso no filme, com desempenhos memoráveis e importantes, desde Eva Marie Saint com a sua expressividade subtil, James Mason ao brandir um carisma vilanesco único, Martin Landau e a sua expressão sinistra e perversa, até Hitchcock ele próprio, mestre de suspense também mestre da frustração em perder autocarros. Não sem fundamento, há quem atente jocosamente que este é o primeiro filme Bond, pelas semelhanças que vão desde o trama de espionagem e intriga, aos visuais da fotografia, à lábia articulada por todas as partes envolventes, ou o charme romantizado no meio do perigo.

North By Northwest é um excelente marco dos tempos áureos de Hollywood que ainda hoje, para o bem ou para o mal, conseguimos retirar elementos dos gêneros de ação e suspense modernos, e estabelecer raízes que partem desta obra de 1959. Sucesso de bilheteira com imensa qualidade artística.

 

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