
A Rapariga Dinamarquesa (The Danish Girl, 2015)
Primeira conclusão após ver esta obra: nem a própria Belle Dominique conseguiria retratar tão bem um transgender.
Segunda conclusão: Para quem achava que Tom Hooper só fazia filmes “fáceis” de ver (foi responsável por Discurso do Rei e Miseráveis), de certeza que mudou de opinião ao ver a cena de nu frontal do Eddie Redmayne (perdoem-me o spoiler).
Mas voltemos ao início, A Rapariga Dinamarquesa é a nova obra de Tom Hooper, baseada no romance homónimo de David Ebershoff, que por sua vez é um retrato ficcional da história das pintoras Lili Elbe e Gerda Wegener, sendo Lili tida como a primeira pessoa a tentar a cirurgia de mudança de sexo.
Aqui o primeiro desafio seria não cair no caricaturável, o que muitas vezes acontece neste géneros de Biopics, tratam-se os sofrimento pela rama, como se de um apanhar de couves se tratasse. Não! Aqui o tratamento foi de choque, com apontamentos de humor inteligente (ao estilo britânico). Hooper, com a mestria do argumento de Lucinda Coxon (levou dez anos a terminá-lo), transpõe para o grande ecrã todo o conflito de género de Einar Wegener / Lili Elbe (Eddie Redmayne), durante o processo de transformação psicológico. Não há nada de divertido nem de piada no que vemos, é cru, vemos uma mulher presa no corpo de um homem, numa altura em que nem palavra para isso existia. A auto e hetero incompreensão daquele estado é aqui acompanhada até à catarse final. Sublime.
No entanto, para a personagem de Einar brilhar, coube a Gerda (a genial Alicia Vikander) um show de contenção e compreensão. Facilmente se poderia cair no erro da choradeira desenfreada e o “Whyismo” exacerbado de uma mulher que acompanha a transformação do seu marido e o “perde”. Felizmente, aqui houve mais robustez nas personagens.
Agora cabe-me dar os louros aos óbvios: Eddie e Alicia têm das melhores performances do ano transacto e “cheira” a óscar. Contenção é a palavra que os une, não só não foram pelo caminho fácil, como criaram uma história de que nem o mais preconceituoso dos seres terá tendência a troçar.
Um verdadeiro tratado à mente humana e à sua complexidade, num filme que, apesar de não ser livre de falhas – o final é excessivamente lírico – apresenta uma magnífica estética e, mais que isso, impacto. Esta obra deixa e deixará marca em quem vê, fornecendo alguma compreensão sobre um tema que ainda é Tabu na nossa sociedade (infelizmente entre o séc. XIX e o XXI não mudou tanto quanto o que seria expectável).