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Entrevista a João Botelho, realizador de “Os Maias”

Aos 65 anos de idade, João Botelho é hoje um caso raro. Um dos cineastas mais reconhecidos do país, e um dos poucos ainda com os apoios necessários para criar grandes produções cinematográficas, o realizador continua a explorar “luz e sombra”, “matéria” e “artifício” – palavras que o guiam (ou perseguem) constantemente. Adaptar obras intemporais para o grande ecrã não é um desafio novo para o realizador: em 2010 fez o Filme do Desassossego, baseado no clássico Livro do Desassossego de Pessoa, e na sua filmografia houve espaço para adaptações de trabalhos de Dickens a Diderot. Agora chega-nos a adaptação para o cinema da obra-prima de Eça de Queirós, Os Maias.

O novo filme de João Botelho, que conta com um orçamento de 1,5 milhões de euros e vários apoios financeiros, estreia hoje em 20 salas portuguesas. Apenas no Cinema Ideal, em Lisboa, será exibida a versão “longa”, com cerca de 3 horas de duração. Encontrámos o realizador numa tarde de sexta-feira, e imediatamente sobressaiu o seu estilo característico: um ritmo acelerado, ideias fortes e um carisma incansável. E o mesmo cigarro sempre em riste. Entrevista por Alexandre Vaz.


Alexandre Vaz Quando é que foi a primeira vez que leu Os Maias?

João Botelho – Quando era puto, como toda a gente.

AVE teve algum impacto, essa primeira leitura?

JB – Teve um impacto, mas não em termos literários. Na altura não tive a noção da grandeza do texto, da maneira como era escrito. Teve um impacto pelo tabu, o sexo com a irmã – o que é normal, é o que na adolescência faz agitar as pessoas. Mas não tinha noção de que o incesto na obra é politico.

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O João tem vindo a falar, recentemente, desse cruzamento entre o incesto e a dimensão política da obra. Podia desenvolver essa ideia?

JB – É uma ideia extraordinária do Eça, uma ideia de Portugal a acabar. Já não há ninguém com quem a elite possa dormir – e a estirpe, para se manter a estirpe, tem de dormir com a irmã. Isso é uma ideia muito engraçada. O Eça demorou 7 anos a escrever Os Maias, e apanhou Portugal. A frase “ainda o apanhamos“, no final do livro, é Portugal.

AVE a leitura que faz da obra é que a própria dimensão sexual faz parte da dimensão politica?

JB – E não excita ninguém, assusta. (Risos) É a ideia de assustar, de incomodar. Não é um filme voyeurista, é um filme com o artifício dado à partida, no genérico.

AVComeça e acaba com essa demonstração consciente do artifício.

JB – Mostramos a parafernália toda que vou utilizar: cenários, pintura, adereços, guarda-roupa, cachimbos, bengalas, chapéus… e no momento em dás o artifício, o que é que fica como verdade? Fica o texto do Eça – que é a coisa mais importante, para mim – e fica o que os espectadores sentem quando veem. No cinema tudo é falso, toda a gente sabe isto. Não é a vida, é uma reproduçao. O que é verdade é o que as pessoas sentem quando veem aquilo.

AVO artifício também é importante no livro ou foi algo que quis dar destaque no seu filme?

JB – É importante no livro e sobretudo no filme. É evidente que no filme tomei mais o partido do Ega que do Carlos da Maia.

AVO que é que isso significa?

JB – Significa, por exemplo, que enquanto que o Eça põe como subtítulo do livro “Cenas da Vida Romântica”, para mim o meu filme é “Cenas da Comédia Portuguesa”. Porque aquilo são arquétipos, as personagens não são individuais. O banqueiro Cohen é todos os banqueiros, o Dâmaso é todos os ciumentos e intriguistas deste país, o conde de Gouvarinho é todos os ministros de Portugal. (Risos) E o Carlos da Maia é uma metade do Eça, e o Ega outra metade. Um é o tédio aristocrático, o champanhe, o caviar e a indiferença, e o outro vive de rendimentos que a família foi acumulando. Como dizia o outro, um “anarca e autor de obras geniais nunca acabadas”. E é essa ideia de um confronto entre as duas metades de um ser humano que me interessa. E depois ainda por cima o Eça revolucionou uma coisa, o romance romântico – a propósito da Madame Bovary, e outras coisas que se passavam no século XIX – e ele rebentou com a ideia de expiação numa culpa. É um romance a amoral. Ou seja, normalmente, num romance clássico do século XIX, o incestuoso dava um tiro na cabeça e a incestuosa ia para um convento.

AV(risos) Em jeito de se redimirem.

JB – Exacto, e ali o incestuoso vai curtir para a europa, para o japão, para nova iorque, durante uns 10 anos. E a incestuosa encontra outra pessoa, casa-se, e continua a sua vida.

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AVPortanto é uma narrativa ultra-moderna.

JB – Ele inventou a modernidade do romance, e isso é grandioso. Por outro lado, uma coisa que me fascinou é que é o único romance do Eça que se pode transpor para qualquer tempo, porque mantém-se. Eu nunca fiz filmes de época, mesmo quando fiz o Dickens, ou o Diderot, ou A Corte do Norte. Faço sempre cinema do dia em que eu filmo, ou seja, é a minha reflexão sobre o país onde estou, naquele momento. E Os Maias permitem que se salte cem anos ou duzentos e manter-se tudo. É Portugal. E o filme está cheio de anacronismos de propósito. Por exemplo, há uma cena, uma piada, onde uma senhora está a ler O Capital. Ora, O Capital foi publicada 25 anos depois da morte do Eça. E estas coisas são para criar estranheza. O cinema deve permitir a liberdade de cada um. Cada pessoa deve ter uma reacção única – como preferir uma personagem, ou estar mais atenta à luz, ou ao guarda-roupa. E acima de tudo, aquilo deve inquietar. O cinema não é para confortar. Um amigo meu chamado Fernando Cabral Martins escreveu um bonito texto que começa assim: “o cinema começou nas férias e acabou nos centros comerciais”. (Risos) Deu a volta completa. E de vez em quando, há uns malucos como nós que temos de tirar isto do centro comercial e dizer “ó meninos, parem, oiçam e vejam”. Percebes? É que o resto são 3000 planos e ninguém vê nenhum, 5000 efeitos sonoros e ninguém ouve nada, come-se e bebe-se num filme, manda-se sms‘s, é uma feira. E às vezes é preciso dizer “alto!” para ver um “quadro” do João César [Monteiro]. É primeiro ter uma narrativa primária mas também uma secundária – as camadas da cebola – e é isso que o Eça tem no romance. E é por isso que ele resiste ao tempo. Há uma narrativa normal, depois uma política, uma psicológica, uma histórica… Camadas, camadas, camadas.

AV –  Então o João subscreveria àquela ideia do Kafka de que uma arte que não perturbe é inútil?

JB – Exactamente. Quando uma pessoa gosta de um filme, devia alterar qualquer coisa na vida. Ir dançar, ir desenhar, ir ler, ir ouvir música…

AVProvocar uma reacção.

JB – Qualquer coisa de diferente da vida normal! Não é uma coisa de evasão, é o criar de situações de mudança. Porque o cinema não dá lições de nada, excepto de cinema. Não dá lições de vida. Mas permite que a pessoa olhe com atenção para a vida que tem. (Risos) Para mim, o cinema no limite são luzes e sombras. Os optimistas tentam passar da sombra para a luz – o Ega. E os Carlos da Maia passam da luz para a sombra. Mas é sempre um jogo de luz e sombras.

AVE no caso do Eça, já que estão presentes as suas duas metades, está presente a luz e a sombra.

JB – É exactamente isso, estão lá as duas. A vida é assim, uma pessoa pode ser maravilhosa e durante meia hora ser um cabrão. E uma pessoa pode ser um bandido toda a vida e de repente ter um acto de generosidade impensável.

AVE para o João o cinema tem como função mostrar um pouco dessa dualidade?

JB – Exacto, mostrar um bocado essa complexidade das coisas. Que não há certezas nenhumas. Há dúvidas e dúvidas e dúvidas.

AVQual foi a maior dificuldade que teve ao fazer este filme?

JB – A única dificuldade que tive foi decidir o que é que se deita fora e o que é que fica. Eu não escrevi absolutamente nada para este filme, só utilizei o texto do Eça.

AVPorquê essa decisão?

JB – Porque é assim: eu posso fazer um filme inteiro sobre a descrição do Ramalhete. Seria travellings nas paredes, a descrever os móveis e as pinturas em voz off… Como o César [Monteiro], que fez a preto e branco a Branca de Neve. Uma pessoa pode fazer tudo no cinema, nunca é uma coisa única. Nunca é o que se passa nem quando se passa, é como se filma. O mesmo texto na minha mão e na tua dá dois filmes diferentes.

AVEntão como decidiu a sua versão?

JB – A minha versão tem a ver com o que eu gosto – a ideia de que a elipse é a figura fundamental do cinema, é o buraco. A passagem do tempo. Desde que se mantenha uma certa fidelidade, desde que não se destrua demais. Agora, o cinema não é um romance. O meu Os Maias não é Os Maias do Eça. É uma visão minha sobre Os Maias do Eça.

AVEmbora seja com as palavras do Eça.

JB – Isso respeito. É a matéria do filme, as palavras do Eça, tal como a matéria do [Filme do] Desassossego eram as palavras do Pessoa. Mas não há um modo único de fazer cinema – é evidente que o cinema americano transformou isto num espetáculo infanto-juvenil. Aquela ideia da sala escura, onde o pensamento ganhava, e havia uma celebração da comunhão das pessoas…

AVAlegra-lhe de algum modo o aparecimento do Cinema Ideal, que está mais perto dessa filosofia?

JB – É lá que vai passar a minha versão integral. Porque esta versão curta não tem só a ver com a história da Lusomundo ter mais sessões…

AVMas também é uma decisão comercial, não?

JB – É, mas não é só comercial. Depois da exibição comercial vou fazer o circuito pelas escolas e pelos cine-teatros. Passo a versão curta nas aulas, porque o filme não pode passar das duas horas senão ocupava aula e meia, e os professores não querem. Depois à noite passo a versão longa para os pais, nos cine-teatros. Como eu sou apoiado pelo Estado, acho que tenho de devolver o serviço público. Portanto vou andar de terra em terra, a falar de cinema, a falar d’Os Maias, etc. Depois à noite posso passar a versão de três horas para os pais à vontade.

AVE como foi o processo de cortar o filme? Soa a algo quase tortuoso.

JB – É, é. Para mim foi mais doloroso cortar das três horas para as duas que cortar um romance que devia ter vinte horas para três. (Risos) E ainda tenho uma versão maior para a televisão, que é a mesma coisa mas tem mais cenas e mais tempo nas cenas. Essa tem quatro episódios de 55 minutos cada. Portanto tenho três variedades, é pior que os champôs e amaciadores. Mas o modo de filmar é sempre igual, não fiz para a televisão uma coisa diferente do que tenha feito para o cinema.

AVE a mensagem também é a mesma.

JB – A mensagem é a mesma: o Eça escrevia como ninguém, este é o romance mais importante do século XIX em Portugal, apanhou Portugal. Diz o banqueiro Cohen que os governos só servem para cobrar impostos e contrair empréstimos, e hoje é igual. Portanto isto permitiu-me viajar sobre este país, pensar onde é que estou… E olha-se para o Eça, e está lá tudo. Portanto espero que as pessoas reajam, que façam qualquer coisa de diferente.

AVQueria só terminar a rebuscar um momento do livro, depois daquela frase mítica “falhamos a vida, menino”…

JB – É que os portugueses não correm nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o amor!…

AVMas!…

JB – Mas para o jantarinho correm todos. (risos)

AVE o Eça escreve logo a seguir: “Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado. Às vezes melhor, mas sempre diferente”. Com esse mote, pergunto-lhe se este filme cumpriu as suas espectativas, ou se foi simplesmente “assado”.

JB – Eu acho que as pessoas devem combater os erros anteriores com os seguintes. E acho que cheguei a um ponto coerente, com um respeito enorme pelas matérias. E não engano ninguém – a minha ideia é que o cinema não deve enganar. Sei lá, eu posso chorar com umas riscas do Rothko, ou com música que não tem narrativa nenhuma mas que me arrasa. E o cinema de que eu gosto deve tender um bocado para a abstração. Eu sei que é um negócio de sentimentos – que é para chorar, para rir, para aborrecer… Mas também tem de ter um bocadinho de neurónios. Um bocadinho, só. (risos) E o meu sonho é que, com este filme, as pessoas vão para casa preencher os buracos que eu não filmei.

AV – Gosto muito dessa ideia. Muito obrigado, João!


Site oficial do filme: http://www.ardefilmes.org/osmaias/

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