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Magia ao Luar (Magic in the Moonlight, 2014)

Os filmes de Woody Allen são como presentes de aniversário – recebemo-los uma vez por ano, vêm embalados num bonito papel de embrulho com letras Windsor e com perfume de old-timey  jazz -, e estamos sempre dispostos a vê-los mesmo que ocasionalmente não sejam as melhores prendas do ano.

Depois de conquistar Londres, Barcelona, ​​Paris e San Francisco, em triunfos recentes, o mestre da sagacidade, dirige-se, agora para o sul francês com Magic in the Moonlight – um golpe de encantamento, com um desempenho ágil e de enorme elegância e charme por Emma Stone e Colin Firth.

O filme é uma versão cómica da configuração clássica do filme-noir. Tem lugar em 1928, na Côte d’Azur, onde Sophie Baker (Emma Stone), uma atrevida medium e con-artist, é suspeita de tentar iludir uma família rica com a promessa de entrar em contato com os defuntos. Stanley Crawford (Colin Firth), um mágico internacionalmente famoso, é convencido, por um amigo, a visitar a dita família, conhecer o meio, e resgatar a família das garras de Sophie, desmascarando-a.

Stanley é um um homem do mundo; Sophie, com toda a sua intuição psíquica aparentemente prodigiosa, não deixa de ser uma jovem inexperiente, viajando sob a asa da sua mãe. Porém Sophie é inteligente, espirituosa e  muito bela, e apesar da sua juventude e inexperiência, as suas atitudes e força de caráter tornam-na uma personagem interessante.

A cena de abertura em Berlim, nos dias caóticos da República de Weimar, sugere já o pesadelo nazi; a presença de ricos cupon-clippers sugere o crash da bolsa do ano seguinte e a depressão que se aproxima. A configuração da Riviera evoca os belíssimos dias de Fitzgerald e Hemingway.

A preocupação de Allen com a morte e sua própria mortalidade é bem documentada nos seus filmes. Traz todo o medo existencial que tem incomodado personagens através dos tempos: é só isto que existe, esta miséria de vida? Ou poderia haver algo mais? Estas questões defininem a cor da sua última obra.

Como é hábito do génio cinematográfico da modernidade, a maioria das personagens em Magic In The Moonlight representam o seu próprio sistema de crenças pessoais e de dicotomias. Firth simboliza o racional descrente, militantemente fixo aos seus ideais; por outro lado, Stone é a imagem do despreocupado, espirituoso e otimista. Estes arquétipos ajudam a dar vida às personagens.

Antes de aterrar numa carreira de comédia, Woody aspirava a ser um mágico e passava horas a praticar truques truques. Como prova de que a velhice é um segunda infância, Allen enverdou pelos filmes com temas mágicos como Scoop, The Curse of the Jade Scorpion, I See a Tall Dark Stranger e agora finalmente o seu 47º filme – Magic in the Moonlight.

Magic in the Moonlighté preenchido com a disputa dialética, tête-à-tête, entre Stanley e Shopie, e as atuações bastante convincentes. O desempenho de Stone é no sentido da formação de uma grande atriz, que revela a essência do filme e, ao fazê-lo, oferece-lhe uma maior substância emocional. O seu desempenho e participação, juntamente com a de Firth, revela uma característica notável que ancora o filme no seu momento histórico com firmeza(tal como conseguido no grande filme de Wes Anderson The Grand Budapest Hotel).

Firth, que vem substituir Woody Allen, é uniforme e ininterrupto, uma extensão profundamente enraizada e cultivada de persona teatral de Stanley. Nenhum outro ator para além de Woody poderia ter retratado o ceticismo e o lirismo de tal maneira como Firth consegue aqui. O realizador já não é propriamente um jovem mas a sua falta de representação, neste filme, sentiu-se com grande impacto, e não sobe ao patamar das suas melhores obras, em parte, por tal.

Magic In The Moonlight continua a ser uma excelente experiência , especialmente para os aficionados do tipo de sofisticado, neurótico e carregado de comédia – uma das especialidades de Allen.

A cinematografia é radiante, os carros e trajes vintage são elegantes e o jogo de sombras é de deleitar.

Outros pontos fracos do filme são a repetição interminável dos argumentos niilistas da personagem de Stanley e a sensação de que o discurso de Woody Allen cede ao género de comédia romântica atual à medida o filme avança para o seu fim – que é, indubitavelmente, uma desilusão.

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