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Filmes da Minha Vida (Nuno Pereira) – Forrest Gump

Existem fórmulas de sucesso. Conjugações de contextos que, se devidamente trabalhados, não têm como correr mal. Em 1986 Winston Groom lança um livro chamado Forrest Gump, esse livro centrava-se em Forrest, alguém que apesar de ter um QI baixo, conseguia mover mundos. Mais do que isso, o livro era uma lição de história sobre a américa e uma verdadeira tentativa de transposição do chamado sonho americano para o papel.

O livro não vendeu muito, ainda não era a altura dele, se calhar faltavam imagens pois, mais que um livro, era um filme transcrito em palavras, ou um argumento imagético.

Foi então que 1994, Robert Zemeckis – um realizador preocupado em contar histórias, que tinha ficado celebrizado pela franquia Regresso ao futuro – entra em ação, tornando um livro – algo que a maioria da população foge a sete pés, se não tiver receitas culinárias – em algo mais sápido aos 5 sentidos. Nascia Forrest Gump, e com o melhor protagonista que se poderia desejar: Tom Hanks, um dos mais amados de Hollywood, que tinha acabado de ganhar um Óscar por Filadélfia. O resultado foram 6 óscares (incluindo melhor ator, melhor realizador e melhor filme) e um legado que dura até hoje e que pôde chegar, 7 anos depois do seu lançamento, a uma criança de 10 anos, ávida por bom cinema (e que já conseguia ler legendas): Eu.

O discernimento de uma criança de 10 é, obviamente, diferente daquele que eu tenho quando agora o (re)vejo, alguns anos depois, mas nem por isso é menos válido. Aliás, aos 10 anos atingimos o auge da nossa capacidade de sonhar e de criar, algo que depois é enclausurado numa caixinha repleta de frases feitas que só existem em murais de Facebook.

Aos 10 anos, Forrest Gump, fez-me sonhar. Certamente não percebi as subtilezas do contexto, da crítica social e da transição entre épocas, na história americana – desde a formação do Klu Klux Klan, até ao aparecimento da sida -, essas coisas passaram-me algo ao lado. O que eu presenciei foi uma história de superação, uma espécie de conto infantil, com uma moral muito própria, mas contada de uma forma que quase parece plausível.

Forrest não era brilhante (muito longe disso), não vinha de boas famílias, era incrivelmente ingénuo e ninguém lhe poderia augurar nada de bom. No entanto, o seu bom coração levou-o longe, tão longe quanto o sonho dele.

Mas afinal qual era o sonho dele? Era simples como o próprio: constituir família com Jenny (Robin Wright), o seu amor de juventude. Esse era para ele o sinónimo de felicidade. Talvez no cúmulo da minha inocência, eu achasse que era isto, e só isto, que deveria chegar. E talvez fosse, mas, a verdade é que todos nós somos infetados pela noção de sociedade, e obrigados a cumprir um papel, quem não o cumprir, é marginalizado.

Estas novas interpretações iam nascendo à medida que eu ia revendo, e os anos avançando. Forrest tem o condão de nos ensinar sempre algo novo a cada visualização. Nada é por acaso, e de acordo com os olhos de quem vê, podemos vislumbrar a mais linda história de amor, ou a mais incisiva crítica a uma sociedade prototípica, em que a lei de Darwin é manifestamente mal interpretada. Não é o mais apto que sobrevive, são as cópias que se perpetuam.

No fundo, eu gosto de acreditar que a vida ainda nos pode surpreender e que é como a mãe de Forrest dizia, e essa ingenuidade eu não quero perder.

My momma always said, “Life was like a box of chocolates. You never know what you’re gonna get.”

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