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Os Filhos do Rock (2014)

Portugal é um país onde não se respeita a cultura, e isto não é uma crítica injustificada, é um facto. Facto esse facilmente comprovado com um exemplo bastante concreto: O espólio cinematográfico de João Cesar Monteiro foi vendido e arrumado na gaveta da Zon (agora NOS), pois nem a Cinemateca, nem a RTP1 tinham espaço para o receber – possivelmente as estantes do IKEA serão incomportáveis para máquinas de propaganda estatal. E afinal de contas o que é o serviço público?

Voltando à estação pública, a verdade é que esta, ocasionalmente, nos presenteia com alguma documentação histórica do que se passou neste país, as memórias que, quem vos escreve, não tem, mas gostava de as ver transpostas indiretamente através de arte. Conta-me Como Foi, foi talvez a última série que conseguiu aliar uma narrativa histórica, alicerçada em entretenimento.

Filhos do Rock veio propor-se a colmatar uma parte da história que raramente é documentada (tirando em livros) e, ainda mais raramente, é reconstruída de forma realista. Na presente série, somos levados por entre o rock português dos anos 80, através de uma banda criada para propósitos fictícios, Os Barões. E tudo começa quando estes abrem um concerto de Rui Veloso no Rock Rendez-Vous e, por aí em diante, há um sem-fim de referências à época ou personagens inspiradas em figuras da altura. UHF, Xutos, GNR, Heróis do Mar e Rui Veloso, Jorge Palma, todos são retratados nesta série. Aliás, às vezes até os próprios, em carne e osso, têm participações especiais na série, com personagens do género “senhor que dá indicações na rua” (casos de Rui Veloso, Júlio Isidro, Zé Pedro). Referências à época também não faltam; desde os passeios dos alegres, às vestimentas, penteados, doenças. Temas como o feminismo e a liberdade sexual, que marcaram a américa e a europa no final dos anos 60 e 70, mas que (como tudo) apenas chegou a Portugal 10 anos depois, já na década de 80, com todos os excessos (e não, não falamos da boysband, essa só chegou no final da década de 90) que isso acarreta.

A narrativa central foca-se nos Barões e na sua transformação de uma banda de garagem, voltada para si mesma, de “pastilha elástica” (como é referido na série), para uma banda mais madura, culminando com a sua desintegração. Durante esse processo acompanhamos as quezílias, as duvidas, e as disputas dentro da banda. Do underground, ao estrelato. As mudanças são a perfeita analogia das alterações no contexto e no rock nacional. Os Barões representam as faces desta “ocidental praia lusitana”.

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Da esquerda para a direita, Zé Paulo, Garrafa e João Pedro; Os Barões

A juntar a isso temos um grande elenco, com Isabel Abreu, Anabela Moreira e Ivo Canelas a destacarem-se, tornando-se muito mais do que personagens secundários. Aliás, este trio e Albano Jerónimo (que interpreta uma espécie de vilão) conseguem ser mais interessantes que o trio de protagonistas (os membros da banda),  Cristovão Campos, Eduardo Frazão e João Tempera. Para além do elenco, a produção de Leonel Vieira (um experiente realizador) confere um carácter cinematográfico a esta série. Ou pelo menos devia…

Ivo Canelas, Isabel Abreu e Albano Jerónimo. Os três verdadeiros Barões da série.

Ivo Canelas, Isabel Abreu e Albano Jerónimo. Os três verdadeiros Barões da série. Só falta a Anabela.

A questão é mesmo essa: grande elenco, uma proposta ambiciosa de recriar uma época muito mal documentada, e uma história central suficientemente interessante para cativar. No entanto, esta série passou que nem um ninja por entre as árvores, que é o mesmo que dizer, que passou tão rápida que ninguém a viu. Foi mal promovida pela RTP1, dava num horário péssimo (meia-noite de sábado), mas, apesar de tudo, gerou uma imensidão de fãs.

Certo é que, a geração espontânea de fãs que criou, tem que ver com o conceito e com o que se propunha a fazer, e não necessariamente com o resultado final. Não, nem tudo funcionou em Filhos do Rock e, à medida que ia avançando, a série foi se tornando profundamente preguiçosa e pouco desafiante. Ao invés de retratar uma realidade desconhecida, contou uma história que todos conhecem. A banda sonora, profundamente kitsch, é retrato fiel da documentação superficial e meramente focada nos highlights da década. Uma espécie de best off às colheres.

Pior, os planos ”telenovelescos” da série, foram retirando brilho a uma narrativa que se desejaria que fosse quase como um filme, contado em pequenas doses.

O que custa mais admitir é que, apesar de todas estas desilusões, todos estes erros de conceptualização. Apesar de todos os pesares, é a melhor série da televisão portuguesa dos últimos tempos, e isso é dizer muita coisa sobre o respeito que se tem pelo espectador de televisão em Portugal.

Desta forma, Os Filhos do Rock podia ter sido uma grande série, mas ficou-se pela superfície, oferecendo momentos de entretenimento, com algumas referências históricas “pastilha elástica”. Ainda assim, não há melhor que isto em Portugal e seria interessante que houvesse. No entanto, ao ser “vendido” de forma errada aos espectadores, não teve o efeito desejado nas audiências, muito por incompetência da estação que tornou esta série um elemento de programação secundário, digno de reposições na RTP2, em horários de insónias.

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